Nossa experiência de voluntariado na África

Em Julho de 2017 demos o play em um dos nossos sonhos: fazer uma viagem de voluntariado na África. O país escolhido foi Moçambique, principalmente por não temos que lidar com a barreira do idioma, já que lá eles falam português (de Portugal). Ficamos mais de 20 dias no continente africano, mas o serviço voluntário foi de 12 dias.

A ONG que voluntariamos chama-se Kulima (contamos nosso processo de escolha da ONG na matéria “Como ser voluntário no exterior?”), criada no ano de 1984 em ligação com uma ONG francesa (Bioforce) no período da Guerra Civil em apoio aos refugiados. Atualmente, a Kulima atua em todas as províncias de Maputo, capital de Moçambique, nas áreas de combate à fome, promoção das comunidades rurais, energias renováveis, combate e sensibilização do HIV, capacitação e sensibilização das comunidades para ocupação legal da terra e uso sustentável de recursos naturais, desenvolvimento integrado da agricultura, micro-crédito, promoção da mulher, dentre outras.

No Brasil, temos OSCs segmentadas por área de atuação: educação, saúde, profissionalização, meio ambiente e etc, já em Moçambique, as ONGs atuam em praticamente todas as frentes devido a necessidade geral do país.

Nossa conversa aqui do Brasil tinha sido toda com o Domenico Liuzzi, diretor e fundador da Kulima, e combinamos que haveria alguém nos esperando no terminal de ônibus em nossa chegada à Moçambique, já que vínhamos de um safári na África do Sul. Chegando em Maputo, descobrimos que não existia terminal de ônibus, e que deveríamos desembarcar na rua, em frente à loja da companhia de ônibus que pegamos. Para nossa surpresa, chegamos lá e não tinha ninguém nos esperando. Esperamos 15, 30, 45 minutos e nada.

Nessa altura, como estava de noite, já pensávamos em achar um hotel para dormir e resolver nosso problema no outro dia, mas antes disso mandei um e-mail ao Domenico questionando sobre nossa carona. Graças a Deus, ele respondeu prontamente falando que o Sr. Sobral, funcionário da ONG, estava nos esperando em outro ponto desde o horário de chegada do ônibus. Após isso, informamos o endereço em que estávamos e o Sr. Sobral logo chegou, acompanhado da Laura, uma voluntária italiana que seria nossa companheira de casa pelos próximos dias.

DICA 1: Pegue o máximo de informações possíveis sobre os contatos da pessoa que te receberá no país de origem. Confirme o endereço de chegada para que não haja confusão e, se possível, leve um chip internacional que funcione internet para facilitar o contato na sua chegada. Tenha uma segunda opção de hospedagem em mente caso algo dê errado no primeiro momento.

DICA 2: Se for possível, tente sempre chegar nos locais durante o dia. As coisas são muito mais fáceis de serem resolvidas de dia, onde há maior circulação de pessoas, comércio aberto e mais tempo hábil para achar uma solução caso algo dê errado.

Depois da confusão na chegada, fomos pro nosso apartamento que ficava no centro de Maputo. Chegando lá, conhecemos a Bárbara, outra voluntária italiana que também estava morando lá. A Bárbara e a Laura foram muito queridas conosco, e já nos ajudaram com a localização, moeda e outras informações importantes. Como estávamos com bastante fome, decidimos andar ali perto e achar algo pra comer. Diferente do que eu imaginava, na cidade de Maputo há um centro comercial como nas nossas cidades aqui no Brasil, a diferença é que lá as regiões de pobreza são muuuuito maiores (a grande maior parte do país), sendo que o centro é uma das poucas partes mais “desenvolvidas”.

Nessa noite jantamos em um restaurante português bem apresentável, e eu (Amanda) escolhi comer um strogonoff de camarão (sim, eu sei que foi uma péssima escolha!). Resultado: o camarão estava gostoso na hora, mas na madrugada seguinte eu comecei a passar MUITO mal, com vômito, diarréia e febre muito alta. De verdade, não lembro, em toda minha vida, de ter passado tão mal quanto naquela vez. A febre estava tão alta que eu comecei a delirar pedindo pra voltar pra casa, sendo que nem havíamos começado a viver aquilo que sonhamos e planejamos por tanto tempo.

Mas o mal estar não foi instantâneo, e eu comecei a passar mal somente na nossa segunda noite em Maputo. No primeiro dia, vieram nos buscar no apartamento e nos levaram para conhecer o escritório e os funcionários da Kulima. Nesse dia conhecemos o Domenico e ficamos o dia todo no escritório entendendo o funcionamento e os projetos da Kulima.

Então, na madrugada da segunda noite, começou o meu pesadelo de passar mal devido ao camarão. Aguentei “firme” a noite toda, até que de manhã cedo, depois de passar muito mal e quase desmaiar, eu pedi que o Gian me levasse até um hospital. Fomos até o hospital central de Maputo, o único que tínhamos conhecido até então. Chegamos lá e descobrimos que o hospital era público, mas que você deveria pagar para ser atendido. rsrs. Tudo bem, além de o valor ser baixíssimo devido ao valor da moeda deles (o Metical), na hora do doença não tem como pensar em cara ou barato… você só quer ficar bem logo.

Meu maior medo era ter contraído Malária, já que tínhamos acabado de voltar de um Safári, e meus sintomas eram muito semelhantes aos da Malária. Chegando no hospital fiz o teste de Malária, que graças a Deus, deu negativo. Tive um atendimento muito ruim, onde a médica mal me olhou e receitou uns antibióticos sem nem dizer o que eu tinha. Passei o restante do dia e da noite tomando os remédios receitados, mas não tive nenhuma melhora.

Preocupado com a minha situação, no dia seguinte, nosso terceiro dia em Maputo, o Gian acionou o Domenico e falou da gravidade do caso. O direto logo chegou no nosso apartamento e me levou para um hospital particular da cidade. Lá o atendimento foi totalmente diferente, e eu fiquei em observação numa salinha individual até que os exames ficassem prontos. Depois de umas 4 horas, fui diagnosticada com intoxicação alimentar, e medicada com injeção e outros remédios.

Com a correria pré viagem, nós esquecemos de uma das coisas mais importantes: o seguro-saúde. Sorte nossa que o valor gasto no hospital particular não foi algo tão estratosférico. Gastamos quase R$ 500,00, convertendo pra nossa moeda. É um valor alto, mas ainda é aceitável, visto que pelo seguro saúde pegaríamos algo em torno de R$ 300. Mas como dissemos, foi sorte que os exames e procedimentos não foram nada de mais… se eu precisasse de algo mais complicado, poderíamos ter tido um problema maior ainda.

DICA 3: Nunca viaje sem seguro saúde. Você pode não usar (e tomara que não precise!), mas é uma segurança em casos de apuro. Além do seguro saúde, tente se informar sobre os hospitais que poderá ir caso algo ocorra. Pode parecer meio negativo demais pesquisar sobre essas coisas quando só queremos ver sobre as coisas boas e garantidas, mas como dissemos, é uma segurança a mais para sua viagem.

O quarto dia em Maputo foi de repouso e recuperação, até que no quinto dia eu estava (quase) novinha em folha para, enfim, começar as atividades na ONG. Nesse dia, fomos encaminhados para a outra sede da Kulima, no bairro de Maxaquene (extremamente pobre) e recebidos pelas adoráveis Anathalie, Ana e Lina, que cuidavam da parte social e educacional da Kulima. As atividades que eles realizavam era de acompanhamento das famílias cadastradas na Kulima, e foi isso que fizemos pelos próximos dias.

Nós andamos por todas as ruas do bairro entrando nas casas pra conhecer os moradores, e verificar como estava sua saúde (mais da metade sofre com o HIV), verificar se as crianças estavam indo pra escola, há quantos dias não comiam e coisas do tipo. Nesse momento tivemos um choque de realidade enorme. Encontramos famílias de 10, até 20 pessoas morando numa casa de um ou dois cômodos, dormindo no chão, todos amontoados, numa casa sem saneamento básico e sem a menor infraestrutura. Vimos crianças que não comiam há dias, crianças de no máximo 10 anos cuidando de outras várias crianças enquanto suas mães iam pra cidade achar algo pra fazer e trazer comida pros filhos, vimos mães morrendo de HIV na frente dos filhos também contaminados, mas que não tomavam o retroviral pois não tinham o que comer, e passavam mais mal ainda se tomassem o remédio de barriga vazia.

Foi tudo muito triste e chocante, mas uma das coisas mais marcantes também foi a alegria do Moçambicano, mesmo com todas as adversidades que são inimagináveis pra nossa realidade aqui em Curitiba (mesmo com os problemas sociais sérios que sabemos que existem aqui, o que encontramos lá foi ainda mais impactante). Era lindo de ver a alegria deles, o quanto cantavam, o quanto amam os brasileirs e nossas novelas, e o quanto encontram a felicidade nas pequenas coisas. Saímos de lá encantados com esse povo tão alegre que são os Moçambicanos!

Além da visitação às casas, fizemos brincadeiras com as crianças, servimos lanches (que foi o que eles mais amaram), distribuímos as doações que levamos daqui e também fomos conhecer as atividades da Kulima nas áreas rurais e ajudar na divulgação de seus fogões e lâmpadas solares nas regiões onde não há energia elétrica, e nas escolas da região.

 

Eles AMARAM esse tio!

Incentivo ao uso de energias limpas nas escolas
Com a Mama Ligia, coordenadora do bairro de Polana Caniça A
O dia em que meu cabelo foi a brincadeira!

DICA 4: Nós levamos como doação escovas de dentes, pasta dental, fio dental, lápis de cor, caderninhos para pintura e dinheiro para comprar lanchinho para as crianças de lá. Chegando lá, percebemos que nada foi mais importante que o lanche. As crianças nem sabiam o que era fio dental. Fizemos uma pequena aulinha com cuidados básicos de higiene, mas o que realmente fez a diferença foi a comida. Higiene é fundamental, e nós sabemos disso. Mas nada faz sentido se eles não têm o que comer, que é o que acontece lá. Se fosse hoje, guardaríamos todo o dinheiro das doações e compraríamos comida pra eles lá, que é bem mais barato que aqui. Faríamos lanche para as crianças, mas principalmente cesta básica para as famílias. Eles realmente passam fome lá, e fazem uma refeição ao dia, quando fazem. Então, se você pensa em viajar e levar algum tipo de doação, recomendamos que foque em comida.

Conhecer a área rural de Maputo também foi uma experiência incrível! Fizemos uma viagem de quase uma hora na caçamba de uma caminhonete, o que é absolutamente normal lá. Aliás, um dos meios de transporte deles é a caçamba de caminhões. Neles sobem mais de 20 pessoas, amontoadas, de pé, sem nenhuma segurança no trânsito. Nós fomos na caminhonete da Kulima, então estávamos em poucos, e o ventinho no rosto foi muito gostoso trazendo um ar de liberdade que super combinava com a paisagem rural que estávamos passando. Chegando lá encontramos uma realidade mais impactante ainda, pois além de toda inexistência de cuidados sanitários que já tínhamos visto na cidade, ali também não tinha energia elétrica, as escolas não eram escolas, e sim árvores, e as pessoas estavam ainda mais longe da cidade, que era o local onde existia maior possibilidade de conseguir comida ou emprego (por mais difícil que isso fosse). Por outro lado, as casas era mais espaçosas (mas ainda sem portas, janelas, camas, etc) devido ao maior espaço disponível no campo.

E no meio do caminho o carro atolou! rsrs Nesse momento já tínhamos desatolado… mas fizemos pose pra foto! rsrs

 

Além dos caminhões, outro meio de transporte que usamos muito foram as “chapas”, vans em péssimo estado usadas para transporte coletivo. Andar de chapa é uma aventura sinistra! rsrsrs Em uma van que cabem 15 pessoas, vão no mínimo 20 pessoas, todas amontoadas, uma no colo da outra, de pé (com as costas curvadas), ou do jeito que couber dentro do carro. O mais engraçado é quando você chega no seu ponto de descida (eles chamam de paragem): eles são muito apressados, e se você estiver esmagado no final da van, tem que gritar muito avisando que vai descer, porque até você conseguir sair do aperto e tirar as pessoas do seu caminho, as chances de eles fecharem a porta da van e seguirem caminho é muito grande! Isso sem contar o fato de que éramos OS ESTRANHOS da chapa né? Todos olhavam pra aqueles dois branquinhos se aventurando nas ruas de Moçambique.

Um terceiro meio de transporte que pegamos foram as Txopelas, também conhecida como Tuc Tuc nos países asiáticos. As txopelas era mais baratas que táxi, mas ainda assim bem mais caras que as chapas. Mas o valor contrastava tanto devido ao valor das chapas que eram absurdamente baratas: pagamos 7 meticais por trajetos de quase 10km, que equivalem a R$ 0,47.  

Tentamos conversar com todas as pessoas que cruzavam nosso caminho e aproveitar ao máximo essa experiência única. Provamos a gastronomia local, conhecemos dois hospitais rsrs, turistamos, andamos de chapa, de caminhão, txopela, caminhamos, brincamos, abraçamos, ouvimos, nos sensibilizamos, enfim, vivemos tudo o que estava ao nosso alcance, e não nos arrependemos um minuto sequer. Muito pelo contrário, morremos de vontade de voltar e usar nossa experiência para contribuir de forma mais substancial com esse povo tão sofrido e tão alegre, e morremos de saudade das amizades tão especiais que fizemos por lá!

Com as queridas Ana e Linda!

           

Moçambique com certeza tem um espaço grande reservado no nosso coração! <3

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